Por Beatriz Nogueira
27 de outubro de 2026
Agências independentes questionam os custos de acesso às plataformas de compra de mídia, enquanto agentes de inteligência artificial prometem automatizar tarefas e negociações. Ao mesmo tempo, grupos de comunicação incorporam tecnologias que atuam também na venda de espaços publicitários. Para o anunciante B2B, a questão é quanto custa alcançar as contas certas — e quem controla essa decisão.
A IA pode reduzir trabalho operacional, mas isso não demonstra, por si só, redução de taxas ou melhora comercial. Uma operação automatizada pode continuar usando os mesmos intermediários. Uma estrutura integrada pode eliminar fornecedores externos sem repassar a economia ao cliente.
Antes de trocar de modelo, o responsável por marketing precisa separar quatro dimensões: custo total, esforço da equipe, transparência do inventário e responsabilidade pelas decisões. Comparar apenas o percentual cobrado pela plataforma deixa parte relevante da conta de fora.
DSP e agente de IA não são alternativas excludentes
Uma DSP, ou plataforma de demanda, permite comprar mídia programática e administrar recursos como segmentação, lances e orçamento. Um agente de IA pode executar tarefas sobre essa infraestrutura. Portanto, adotar um agente não significa necessariamente dispensar a DSP: é preciso identificar onde a compra será efetivamente processada.
Nos Estados Unidos, agências independentes relatam que o aumento do volume comprado não garantiu o relacionamento direto com DSPs que esperavam obter para evitar taxas de revendedores. A discussão sobre custos e agentes de compra, publicada em 27 de outubro, também aponta maior disposição para testar automação. Não apresenta, porém, uma economia padronizada que possa ser aplicada às propostas brasileiras.
Na avaliação de fornecedores, peça o desenho da operação: quais plataformas serão usadas, quem detém as contas e quais tarefas o agente executará. Configurar campanhas, recomendar alterações e autorizar gastos são atividades diferentes. Como na comparação entre agência B2B e generalista, a capacidade oferecida precisa corresponder ao desafio comercial, não apenas ao discurso tecnológico.

A integração entre compra e venda exige visibilidade
Outro movimento ajuda a entender o risco de comparar apenas interfaces. A Stagwell anunciou em 26 de outubro a aquisição da Freestar, incorporada à divisão Owned Media. A operação reúne capacidades de compra e monetização de inventário. A Freestar atende mais de mil publishers, cujas propriedades geram quase um bilhão de solicitações de anúncios por dia. Solicitações não equivalem a anúncios vendidos.
A aquisição envolve tecnologia e serviços, não a propriedade dos publishers atendidos. Os termos financeiros não foram divulgados. A integração pode encurtar caminhos entre anunciantes e veículos, mas não comprova que o orçamento do cliente renderá mais. Tampouco demonstra, sozinha, favorecimento indevido.
O aprendizado para o anunciante brasileiro é contratual: se o grupo participa da compra e da monetização, deve explicar sua remuneração em cada etapa. Peça identificação das relações comerciais relevantes, critérios de seleção dos veículos e comparação com alternativas equivalentes. Ter menos empresas no caminho não significa necessariamente pagar menos.
Compare o custo total, não apenas a taxa anunciada
Solicite propostas com componentes separados: verba de mídia, plataforma, revenda, gestão, dados, verificação, tecnologia de IA e implantação. Pergunte ainda sobre mínimos de contratação, excedentes de uso e condições de saída. Os itens variam por fornecedor; não se deve presumir que todos cobrem da mesma forma.
Um exemplo hipotético mostra a diferença. Uma operação com R$ 100 mil de mídia e R$ 10 mil de outros custos soma R$ 110 mil. Outra mantém os R$ 100 mil de mídia, reduz esses custos para R$ 6 mil e acrescenta R$ 5 mil pelo agente: total de R$ 111 mil. A redução de uma linha não virou economia no conjunto.
Depois, inclua o trabalho interno. Horas liberadas só representam economia financeira quando evitam despesas ou reduzem custos efetivos. Também podem gerar capacidade para outras tarefas, mas esse benefício deve ser descrito separadamente. A lógica é semelhante à avaliação de automação em suíte ou ferramentas separadas: integração e dependência do fornecedor entram no custo total.
Meça o trabalho que desaparece e o que surge
Automatizar configuração e ajustes pode diminuir atividades repetitivas. Em contrapartida, a equipe precisará validar integrações, revisar exceções e acompanhar decisões. Na proposta, peça uma relação das tarefas atuais, das tarefas automatizadas e das novas obrigações de supervisão.
O contexto brasileiro reforça essa necessidade. No IMTM — Índice de Maturidade Tecnológica em Marketing B2B, da Ibramerc, de 2026, 49% das empresas respondentes relatam que os dados de marketing e vendas não estão integrados. Embora 60% tenham aplicações de IA em produção, só 18% chegaram à governança ativa de IA, com métricas e melhoria contínua.
Esses resultados não medem o retorno de agentes de mídia. Indicam, porém, por que colocar automação em produção não encerra o trabalho de gestão. Para testar produtividade, registre horas por atividade antes e durante o piloto, incluindo correções e supervisão. Não conte uma tarefa como eliminada se ela apenas mudou de responsável.
Inventário transparente precisa permitir contestação
Em mídia, inventário é o conjunto de espaços disponíveis para anúncios. Para uma campanha B2B, alcançar muitos usuários não basta: é necessário avaliar a aderência ao público e às contas pretendidas. Um CPM menor pode acompanhar uma audiência menos relevante, sem representar vantagem comercial.
Peça relatórios por domínio, aplicativo ou outra identificação compatível com o canal. Verifique quais dados estarão disponíveis antes da contratação. A avaliação deve abranger posicionamento, qualidade, frequência e critérios de inclusão ou exclusão. Se o acesso for limitado, essa restrição precisa entrar na decisão de compra.
Para agentes de IA, solicite também registros das alterações: o que mudou, quando, com qual objetivo e sob quais limites. Não é necessário exigir uma explicação impossível de cada cálculo. É necessário conseguir reconstruir decisões relevantes, contestar desvios e bloquear destinos inadequados.
A responsabilidade continua sendo humana e contratual
Defina quem aprova orçamento, públicos, mensagens e mudanças de inventário. Uma autonomia útil pode incluir ajustes dentro de faixas autorizadas. Já aumentos de verba ou mudanças relevantes de segmentação podem exigir aprovação humana. Os limites devem ser explícitos, não uma expectativa informal entre agência e cliente.
O contrato precisa indicar responsáveis por incidentes, prazos de resposta e mecanismos de interrupção. Pergunte quem atua se o agente ultrapassar o orçamento, usar uma audiência não autorizada ou publicar em ambiente excluído. A tecnologia não substitui a distribuição clara de obrigações entre anunciante, agência e plataforma.
Inclua ainda acesso às contas, exportação dos registros e transição para outro fornecedor. Sem isso, uma interface simples pode esconder dependência operacional. O controle da operação deve sobreviver à troca da ferramenta ou ao encerramento do contrato.
Faça o piloto responder a uma decisão de compra
Compare modelos com objetivos, públicos, qualidade de inventário e critérios de mensuração tão equivalentes quanto possível. Defina previamente orçamento máximo, duração, regra de interrupção e evidências necessárias para aprovar a expansão. Mudanças de canal ou audiência precisam ser registradas, pois podem explicar diferenças atribuídas à IA.
Separe três resultados: economia financeira, produtividade e desempenho comercial. Para este último, acompanhe qualidade dos leads, contas alcançadas, oportunidades e pipeline, conforme a estratégia. A mensuração da contribuição do marketing à receita B2B exige conectar campanha e processo comercial; cliques ou cadastros isolados não demonstram conversão em vendas.
A escolha não precisa ser entre manter tudo como está e entregar toda a verba a agentes. Pode começar com uma tarefa delimitada e supervisão clara. A IA corta custos quando o teste comprova redução líquida sob condições comparáveis. Quando apenas desloca cobranças ou esconde decisões, muda a embalagem — não demonstra uma operação melhor.
Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisado pela equipe editorial da Live University.
Especialista de Marketing B2B. Compara como empresas de setores, tickets e ciclos diferentes constroem marca e geram demanda — ABM, conteúdo, eventos, mídia, inbound — e quanto cada caminho entrega de pipeline e de receita. Analítica: antes da campanha, pergunta como a contribuição foi medida.
